Da alma e de quanto tiver

O principal propósito deste blog é comentar discos, livros, acontecimentos musicais e partilhar ideias sobre música, arte, história e educação. Os textos aqui presentes foram publicados nos seguintes periódicos: "Jornal de Letras, Artes e Ideias", "Ópera Actual" e "Diário de Notícias da Madeira"

Quarta-feira, Agosto 09, 2006

Mais do mesmo no São Carlos

No passado dia 20 de Junho foi apresentada a Temporada 2006-07 do Teatro Nacional de São Carlos. No plano geral, a nova Temporada é muito pouco surpreendente, não havendo novidades entusiasmantes, principalmente no que diz respeito à política, filosofia e organização do São Carlos.

A Temporada Lírica inclui um total de oito óperas. As óperas mais inesperadas são a ópera-tango “Maria de Buenos Aires” de Astor Piazzolla (estreia a 29 de Junho de 2007), que vai contar com a fadista Mísia como intérprete central – o elemento mais surpreendente da temporada, porque quem conhece o trabalho de Mísia, sabe que a cantora tem uma excelente expressão artística e uma personalidade forte, mas é uma cantora bastante limitada –, e a ópera “Montezuma” de Antonio Vivaldi (estreia a 4 de Abril de 2007), cuja encenação será a estreia absoluta nos tempos modernos. Entre as restantes seis óperas da temporada, cinco pertencem ao grande repertório internacional de ópera, merecendo principal destaque: “A Valquíria” de Richard Wagner (estreia a 24 de Fevereiro de 2007), a esperada continuação do ciclo “O Anel do Nibelungo”, cujo prólogo “O Ouro do Reno” criou grande impacto esta temporada; “Wozzeck” de Alban Berg (estreia a 17 de Janeiro de 2007), ópera que já constitui um clássico do repertório entre o repertório do século XX; e “Macbeth” de Giuseppe Verdi (estreia a 31 de Maio de 2007).

A abertura da temporada será feita no próximo dia 30 de Novembro com a ópera “Così fan tutte” de Mozart. A temporada lírica conta ainda com a ópera “L’Italiana in Algeri” de Gioachino Rossini (estreia a 2 de Maio de 2007) e com a ópera-oratória “Oedipus Rex” de Stravinsky (estreia a 15 de Dezembro de 2006), que será apresentada numa versão de concerto, em conjunto com a “Génesis Suite”, obra encomendada em 1944 pelo maestro e compositor norte-americano Nathaniel Shilkret a alguns dos principais compositores da época (Schönberg, Milhaud, Castelnuovo-Tedesco e Stravinsky).

Na temporada sinfónica, destacam-se alguns concertos de homenagem aos compositores Mozart, Chostakovitch e Fernando Lopes-Graça – o único compositor português que sobrevive na actual temporada –, um ciclo de quatro concertos com Sinfonias de Schumann e seis concertos em co-apresentação com o CCB, tal como tem acontecido nas últimas temporadas.

A nova temporada conta ainda com um pequeno ciclo de concertos comentados – “Os Concertos Comentados do São Carlos Foyer” –, dedicados aos seguintes temas: “Beethoven-Casella” (início a 9 de Fevereiro); “Música na Corte de Maria Bárbara” (começo a 15 de Março); e “Os Compositores Portugueses do Liberalismo e a Ópera” (início a 12 de Abril).

Breve comentário à temporada

Tendo em consideração os normais desígnios públicos de um teatro lírico nacional, no plano europeu, considero um dever cívico realizar alguns breves comentários à nova temporada do Teatro Nacional de São Carlos. Entre os objectivos básicos de um teatro com as características do São Carlos, contam-se habitualmente os seguintes: (1) Internacionalização do prestígio do teatro; (2) Difusão da arte de ópera ao maior número possível da população; (3) Estímulo para a criatividade artística; (4) Defesa e promoção dos artistas nacionais; (5) aumento do nível cultural do país.

No que diz respeito ao primeiro objectivo, o Ministério da Cultura e a Direcção do Teatro têm alcançado bons resultados. Tem sido prática corrente a produção de grandes óperas do repertório internacional – com a participação de excelentes cantores e maestros do circuito internacional – e é bem visível que algumas das produções têm apresentado encenações inovadoras ao nível europeu, que bem prestigiam o nosso teatro.

Infelizmente, no que diz respeito aos restantes quatro objectivos, as coisas complicam-se para os responsáveis do nosso Teatro Lírico. Em nenhum dos objectivos atrás apresentados os resultados são de bom nível.

A difusão da ópera, ao maior número de pessoas e ao público mais variado possível, está muito longe de ser uma realidade. A esmagadora maioria da população portuguesa continua afastada do Teatro São Carlos e nada se faz para chegar ao público infantil e juvenil – como acontece noutros teatros líricos europeus de referência –, nem se criam temporadas alternativas para aproximar o público adulto do São Carlos. Em suma, continua a não haver “Sessões de ópera infantis e juvenis”, que visem iniciar os jovens na arte de ópera e a garantir o futuro do género, e não se realizam “Sessões mais informais e ligeiras” com musicais e operetas. Estes mercados alternativos, existentes noutros teatros europeus, poderiam permitir um melhor aproveitamento dos recursos humanos do São Carlos (ainda subaproveitado, a meu ver) e permitir aos compositores, maestros e cantores portugueses, um mercado de menor responsabilidade, que a temporada lírica de cariz internacional. Além disso, sem dúvida que estas temporadas alternativas ajudariam muito a estimular a criatividade artística nacional. Defender, como faz a direcção do São Carlos, que 113 espectáculos e 50 000 espectadores ao longo de um ano inteiro são números elevados, só prova que os objectivos são pouco ambiciosos. Senão vejamos dois exemplos: (1) o Gran Teatre del Liceu realiza uma média de 300 sessões por ano, chegando a cerca de 400 000 espectadores; (2) até uma orquestra privada portuguesa, sem nenhum subsídio público, como é a Orquestra Didáctica da Foco Musical (com cerca de 50 músicos), no último ano realizou 22 espectáculos onde tocou para 30 000 espectadores.

Finalmente, uma temporada de um Teatro Nacional onde apenas consta um compositor português, não pode afirmar que defende e promove de forma sistemática os artistas nacionais. Enquanto a política for esta, não haverá um aumento do nível cultural português, ficando o coro e orquestra do São Carlos a tocar para o mesmo público de sempre com o mesmo dinheiro do erário público.

Terça-feira, Agosto 08, 2006

Natércio Afonso “Investigação Naturalista em Educação”


Numa época de rápidas mudanças, a instituição escola necessita de constantes reformas, de modo a acompanhar a evolução da sociedade e evitar ficar um espaço de conteúdos e práticas obsoletas.

No entanto, a escola actual é uma instituição pesada e complicada de reformar. Qualquer reforma acarreta custos elevadíssimos, não podendo o ensino partir para aventuras, baseadas em intuições individuais ou inspirações advindas de experiências pessoais, não fundamentadas por estudos e investigações bem conduzidas.

O livro “Investigação Naturalista em Educação” de Natércio Afonso constitui mais um guia importante sobre “como” fazer investigação na área da educação. Num país em que a investigação na área da educação começa agora a dar os primeiros passos importantes e a ter alguma tradição, o lançamento de guias de investigação nunca são demais. Ainda por cima quando a informação teórica do livro é fundamentada em experiências de investigação concretas realizadas nos últimos dez anos e orientadas pelo autor, no domínio da educação em Portugal.


Natércio Afonso dividiu o livro em cinco grandes partes. Parte I – Discussão dos fundamentos da investigação educacional, onde realiza uma breve caracterização das principais correntes de investigação; parte II – apresentação das principais fases de investigação (1. definição do problema de investigação, 2. revisão da bibliografia, 3. definição de opções de método, 4. conceptualização do design da investigação, 5. selecção de técnicas e instrumentos de recolha, 6. tratamento da informação empírica); parte III – Estratégias de investigação naturalista (abordagens etnográficas, estudos de caso, investigação-acção, estudos biográficos, etc.); parte IV – Inventário de técnicas e instrumentos de recolha de informação; parte V – Técnicas e instrumentos de análise e interpretação da informação empírica.

Entre os pontos positivos do livro, salientam-se a clareza da linguagem do autor e a forma como apresenta as principais opções com que o investigador se depara ao longo do processo de investigação; pela negativa, destaca-se alguma falta de sentido prático, num livro que pretende ser um “guia” de investigação, apesar de o autor dedicar cerca de 100 páginas com exercícios de aplicação e exemplos de investigações concretas. Outros livros do género conseguem ser muito mais fáceis de utilizar, nos exercícios e exemplos escolhidos.

O autor é doutorado em Educação pela Boston University (EUA) e exerce desde 1998 funções como professor auxiliar convidado na Faculdade de Psicologia e de Ciências da Educação na Universidade de Lisboa.


A ficha do Livro

Autor: Natércio Afonso
Título: Investigação Naturalista em Educação
Páginas: 223
Editora: Asa
Assunto: Educação

Rui Canário «O que é a Escola? : Um “olhar” sociológico»

O livro "O que é a Escola?" parte do princípio que vivemos há décadas numa “crise de escola” que, segundo Rui Canário, o autor do livro, significa simultaneamente uma crise da capacidade de pensar a escola. Perante esta alegada crise, o autor propõe, mais do que procurar soluções, contribuir para uma melhor compreensão do fenómeno, realizando uma compilação de pesquisas empíricas sobre o tema “escola”.

O livro está dividido em três partes que quase constituem três livros autónomos. Na primeira parte, Rui Canário gasta cerca de 50 páginas a defender a pertinência de um “olhar” sociológico sobre a escola, numa discussão epistemológica muito comum nalgumas correntes da sociologia e das ciências da educação, mas que é pouco atraente para os mais interessados em informações e soluções para os reais problemas da escola e menos interessados nas fragilidades epistemológicas destes domínios disciplinares.

A segunda parte do livro é a mais interessante e a que melhor corresponde ao título do livro. O autor realiza aqui uma síntese temática sobre a escola, em redor de quatro eixos fundamentais, onde apresenta as suas reflexões fundamentadas em vários exemplos educativos nacionais e internacionais. Os quatro eixos de análise são: (1) Processos de mudança na escola, onde é realizada uma abordagem da génese histórica da escola; (2) a escola e os fenómenos de mudança deliberada, em que o autor ilustra a dialéctica existente nos processos de mudança da escola, tendo como referência a contraposição entre um “lógica de reforma” e uma “lógica de inovação”, que têm coexistido desde os anos 60; (3) a escola como sistema de actores sociais, onde são analisados os papéis dos vários intervenientes da experiência escolar, principalmente professores e alunos; (4) a relação da escola com os territórios é o último eixo analisado, sendo dada preferência pelo autor às problemáticas da escola em meio rural e em zonas urbanas desfavorecidas.

Finalmente, a última parte do livro consiste num “post scriptum”, em que o autor defende uma releitura da obra de Ivan Illich, particularmente das suas propostas de desescolarização.
Rui Canário é licenciado em História pela Universidade de Lisboa e doutorado em Ciências da Educação pela Universidade de Bordéus II, sendo actualmente professora da Faculdade de Psicologia e de Ciências da Educação da Universidade de Lisboa.


A ficha do Livro

Autor: Rui Canário
Título: O que é a Escola? Um “olhar” sociológico
Páginas: 208 p.
Editora: Porto Editora
Assunto: Educação

Nuno Graceliano Lino “A visita de suas majestades em 1901”

A visita do rei D. Carlos I e da rainha D. Amélia ao arquipélago da Madeira em 1901, entre os dias 22 e 25 de Junho, criou um clima de euforia por toda a ilha. Este entusiasmo encontra-se bem descrito nos jornais da época, que começaram a noticiar a visita dos reis vários meses antes da breve visita. Todas as principais personalidades madeirenses queriam participar nas festividades preparadas para os reis, tendo inclusivamente havido alguma competição na preparação das celebrações.

O programa da visita real incluía de tudo um pouco: recepção aos reis no desembarque no Funchal (ver fotografia); récita de gala no actual Teatro Baltazar Dias; Missa na Sé e Missa campal; Visita aos quartéis militares; passeio nos actuais “carrinhos do monte” à saída da Quinta Choupana (ver fotografia); jantares de gala; e até mesmo um baile na Quinta Vigia com fogo-de-artifício.

Na área artística, a música teve presente em quase todos os momentos. Ora tocando o Hino de Portugal (o anterior, não o actual), a finalizar as intervenções do rei; ora engrandecendo as cerimónias religiosas; ora dando charme aos momentos de gala.

Entre os vários músicos que participaram nas várias orquestras organizadas, destacou-se Nuno Graceliano Lino (1859-1929), a quem coube a honra de dirigir a orquestra que tocou num dos momentos mais importantes da visita: o baile da Quinta Vigia.

Pouco se sabe sobre este músico madeirense. Os poucos dados biográficos que actualmente conhecemos têm quase todos origem no Diário de Notícias de 16 de Fevereiro de 1929, na notícia do seu falecimento. Aqui é referido que Nuno Graceliano Lino foi «um músico distinto e conceituado professor de piano e regente de orquestras». Ainda segundo o mesmo autor da notícia, este músico madeirense, «além de ser apreciado como compositor», foi «organizador de quase todas as orquestras que se faziam ouvir nos salões aristocráticos e nas grandes solenidades da diocese» do Funchal.

No âmbito da música sacra, sabemos ainda que Nuno Graceliano Lino foi organista da Catedral e conhecemos actualmente uma obra sua para orquestra de cordas com flauta e órgão, que terá tido algum destaque na diocese do Funchal ao longo de algumas décadas e que prova o seu elevado nível musical como compositor: uma Sinfonia de Santa Cecília.

A escolha de Nuno Graceliano Lino para dirigir a orquestra do baile da Quinta Vigia é outra das maiores provas do enorme prestígio que o músico deveria gozar na época na Madeira. Neste baile, segundo uma descrição da época, o músico não defraudou as expectativas, como se pode confirmar de seguida:«O baile de recepção que prosseguiu até às quatro horas da madrugada, sempre animado e brilhante, ao som de uma magnífica orquestra regida distintamente pelo Sr. Nuno Graceliano Lino, deixando em todos os convidados recordações gratíssimas que lhe ficarão gravadas, por muito tempo, no espírito como as d’um sonho delicioso, até, então, nunca sonhado» (continua no próximo número).

João A. Lopes «Dificuldades de aprendizagem da leitura e da escrita»

O atraso educativo é um problema clássico e central em Portugal, cuja discussão de forma sistemática remonta ao final do século XIX, já lá vão mais de 100 anos. É certo que, entretanto, o problema mudou muito e que nos últimos 30 anos Portugal teve um avanço significativo neste domínio. No entanto, a frieza dos números não engana, continuando as estatísticas europeias a mostrar Portugal como o país com a maior taxa de abandono escolar precoce. Cerca de 45 em cada 100 portugueses, entre os 18 e os 24 anos, não concluem o ensino secundário e não se encontram a frequentar qualquer tipo de ensino.

Mas o que justifica uma taxa de abandono tão elevada? Entre as principais causas para o insucesso escolar e para este abandono precoce, há quem saliente – como é o caso de João A. Lopes, o autor deste livro, professor no Departamento de Psicologia da Universidade do Minho – as dificuldades de aprendizagem da leitura e da escrita durante os primeiros anos de escolaridade.

Este não é um problema menor e muito menos um problema localizado exclusivamente em Portugal. Ao colocar este tema na ordem do dia, João A. Lopes está a tentar colocar como prioridade em Portugal um dos temas centrais da Educação na Europa a 25. Por exemplo, uma das acções do programa SÓCRATES – um dos mais importantes programas da União Europeia na área da Educação –, destaca apenas três temas prioritários para a «observação, análise e inovação» dos investigadores. Entre esses três temas prioritários, encontra-se este problema das baixas competências dos alunos em leitura, sendo apoiadas pelo programa SÓCRATES as investigações que se insiram dentro do seguinte objectivo: «compreender melhor para melhor combater o fenómeno das baixas competências em leitura e dos leitores com dificuldades.» Deste modo, a temática do livro não podia ser mais pertinente e actual, sendo um problema que definitivamente deve entrar na ordem do dia dos educadores e das políticas de educação.

O livro está organizado em duas partes principais. Na primeira, o autor aborda pormenorizadamente o conceito de «dificuldades de aprendizagem» e apresenta resumidamente algumas das principais causas para este fenómeno, entre os quais destaca: (1) factores psicológicos, tais como défice de linguagem, de memória e de atenção; (2) factores socioculturais, como por exemplo pobreza de vocabulário do contexto familiar ou falta de estimulação na família para os livros; (3) factores institucionais, tais como o tipo de ensino ministrado à criança e a qualidade do currículo; (4) e finalmente factores neurofisiológicos, entre os quais se destacam disfunções cerebrais mínimas e factores genéticos.

Na segunda parte do livro, João A. Lopes apresenta sinteticamente a sua proposta de solução para este problema: a organização de serviços de apoio que antecipem o surgimento das dificuldades de aprendizagem de leitura e da escrita, antes de se iniciar a fase de angústia dos alunos da escola e consequente desmotivação e abandono escolar.

Um livro bastante positivo, não tanto pela proposta de solução do autor (que carece de alguma falta de pormenor), mas pela compilação de informação que realiza sobre um tema central para o desenvolvimento da educação em Portugal.


A ficha do Livro

Autor: João A. Lopes
Título: Dificuldades de aprendizagem da leitura e da escrita
Páginas: 160 p.
Editora: Edições ASA
Assunto: Educação

Quinta-feira, Agosto 03, 2006

Sérgio Borges (Parte II) “O vencedor do Festival RTP da Canção”


Na primeira participação de Sérgio Borges no Festival RTP da Canção, em 1966, o músico madeirense alcançou uma brilhante classificação com a canção «Eu nunca direi adeus» – um honroso 2.º lugar –, tendo apenas ficado atrás da cantora Madalena Iglésias, que ganhou com a famosa canção «Ele e Ela».

A sua boa prestação no Festival e o sucesso alcançado nos dois anos anteriores foram inclusivamente reconhecidos pela imprensa escrita, que não ficou alheia à qualidade do cantor madeirense. No mesmo ano, em 1966, a crítica escrita premiou o enorme sucesso de Sérgio Borges com o “Prémio da Imprensa” ex-aequo com a cantora Madalena Iglésias, na rubrica Música Ligeira – cançonetista.

O cantor madeirense «não disse adeus» ao festival e, quatro anos mais tarde, o primeiro prémio não fugiu a Sérgio Borges. Assim, em 1970, o cantor concorreu com a canção «Onde vais rio que eu canto», com música da autoria de Carlos Nóbrega e Sousa e letra de Joaquim Pedro Gonçalves.

A música cativou o júri e alcançou a maior votação da noite: 84 pontos. Saliente-se que, entre os concorrentes de Sérgio Borges, encontravam-se alguns dos cantores históricos da canção portuguesa, que ficaram com pontuações bem mais humildes. Fernando Tordo, por exemplo, alcançou uns pobres 3 pontos e Paulo de Carvalho não ficou muito melhor, tendo recebido do júri apenas 24 pontos.

Infelizmente, o insólito aconteceu e Sérgio Borges não teve a sorte de participar no Eurofestival. Em TODAS as edições da Eurovisão, saliente-se, esta foi a única vez que Portugal não participou no festival europeu por vontade própria. A história é simples e vergonhosa. Em 1969, houve protestos por toda a Europa no final do Festival da Eurovisão desse ano, que decorreu em Madrid. Portugal depositava grandes esperanças na canção “Desfolhada” (cantada por Simone) e essas expectativas saíram goradas. A piorar a situação, a canção inglesa, que era considerado por muitos como a pior de todas do festival, ficou entre as 4 primeiras (!). Factos como este alimentaram os boatos de "arranjos" e votos "comprados" no Eurofestival, com especial dedo indicador apontado às empresas discográficas, e motivaram a revolta de alguns países. Resultado: Portugal e outros países não participaram em 1970. Em 1971, fizeram-se algumas alterações ao modelo da Eurovisão e Portugal voltou a participar no festival europeu sem mais interrupções.

Quem sofreu com o mais negro episódio da Eurovisão foi Sérgio Borges, que viu assim impossibilitada a hipótese de participar no plano europeu, por motivos que lhe foram completamente alheios. Deste modo, nunca saberemos a votação que Sérgio Borges alcançaria do júri internacional.

O que sabemos é o nome da cantora portuguesa que teve a melhor prestação de sempre no festival europeu. Ainda se lembra?... Pense um pouco... Não... Também não...
A melhor votação de sempre de um português na Eurovisão foi alcançada por Lúcia Moniz, em 1996, com a canção "O meu coração não tem cor", que trouxe para Portugal um óptimo 6º lugar.

Quinta-feira, Fevereiro 23, 2006

Sérgio Borges (Parte I) “O vencedor do Festival RTP da Canção”



A competição e convívio entre os povos europeus não se faz apenas no meio desportivo. Na música, os países europeus já concorrem entre si desde 1956, através do Festival da Eurovisão da Canção. Deste modo, celebra-se em 2006 os 50 anos deste importante acontecimento musical europeu.


Portugal não entrou logo desde o primeiro Festival, mas foi um dos primeiros países a aderir a este evento europeu no ano de 1964. Nesse ano, a 2 de Fevereiro, a RTP organizou o primeiro Festival RTP da Canção, cabendo a honra da vitória ao cantor António Calvário, com a canção “Oração”, que representou Portugal no Festival da Eurovisão, em Copenhaga (Dinamarca). O olhar dorido e os gestos religiosos de António Calvário não convenceram na Dinamarca e a canção portuguesa não obteve, infelizmente, qualquer ponto nesta sua primeira participação na Eurovisão.


O primeiro madeirense a participar no Festival RTP da Canção como intérprete foi o cantor Sérgio Borges, com «Eu nunca direi adeus». Logo na primeira participação, em 1966, o cantor ficou num honroso 2.º lugar, tendo apenas ficado atrás da cantora Madalena Iglésias, que ganhou com a famosa canção «Ele e Ela».


Quatro anos mais tarde, em 1970, Sérgio Borges venceu mesmo o Festival RTP da Canção, sendo o primeiro madeirense a conseguir tal proeza. Como curiosidade, refira-se que o músico madeirense ficou à frente de cantores como Paulo de Carvalho e Fernando Tordo, numa época em que o Festival tinha muito mais impacto social do que na actualidade, sendo seguido atentamente em todo o país, como um dos maiores eventos do ano.


Mas qual foi o percurso de Sérgio Borges antes de chegar à vitória do Festival? Quais foram os caminhos que o cantor percorreu até chegar ao topo do mundo da canção portuguesa?
Sérgio Borges começou a sua carreira de músico no seio do Conjunto Académico João Paulo. O grupo nasceu no Liceu Jaime Moniz, no início da década de 60, e foi influenciado pela nova vaga de grupos musicais e cantores dos Anos 60, ao estilo dos Beatles.


Após um período de aprendizagem e de actuações no Funchal, o grupo deu o salto para Lisboa. Em 1964, o grupo ganhou um dos concursos de música realizados na Madeira – uma promoção da Rivus, no antigo Cine-Parque – e foram premiados com actuações no continente, na Rádio e na TV. Na televisão, o grupo participou no programa musical “T.V. Clube” e obteve um grande sucesso, que catapultou a música do Conjunto a nível nacional. O êxito teve tal dimensão que os músicos madeirenses acabaram por decidir radicar-se em Lisboa, de modo a dar continuidade ao sucesso obtido.


Os anos de 1965 e 1966 foram fantásticos para o Conjunto. Em pouco tempo, tiveram a oportunidade de gravar discos, entre os quais se destaca o «Hully Gully do Montanhês», e começaram a ser clientes assíduos em emissões de rádio, televisivas e em espectáculos.
Entre os espectáculos de maior sucesso, neste início de carreira em Lisboa, salientam-se os realizados no Teatro Politeama e mais tarde no Teatro Monumental. No Politeama, durante um mês e meio, o Conjunto tocou para casas sempre cheias, num ambiente ao estilo dos Beatles... fãs a gritar e a desmaiar na plateia. Pouco tempo depois, no Teatro Monumental, o Conjunto teve a confirmação do sucesso: enorme histerismo e os mesmo desmaios, numa reacção do público inovadora em Portugal e que marcaria o início de uma nova era musical. Este sucesso foi coroado em 1966 com a primeira participação de Sérgio Borges como intérprete no Festival RTP da Canção, onde alcançou o honroso 2.º lugar (continua no próximo número).

Terça-feira, Fevereiro 07, 2006

O Barbeiro de Sevilha volta ao São Carlos

A obra-prima e a mais popular composição de Gioacchino Rossini (1792-1868), a ópera cómica Il barbiere di Siviglia, vai ser apresentada no Teatro Nacional de São Carlos no próximo dia 8 de Fevereiro, às 20:00h. Serão ainda apresentadas outras sete récitas nos dias 9, 10, 14 e 15 e 16 de Fevereiro, às 20:00h, e nos dias 11 e 12 de Fevereiro, às 16:00h.

Rossini foi a figura central da ópera italiana na primeira metade do século XIX. Apesar de apenas ter composto durante cerca de 20 anos, o músico italiano completou mais de 40 óperas, que alcançaram grande sucesso um pouco por toda a Europa. Enormes vultos da ópera italiana como Donizetti e Bellini ficaram sempre na sombra de Rossini e apenas no final da década de 50, Verdi destronou o compositor de “Guilherme Tell” e de “O Barbeiro de Sevilha”, na preferência do público.

Apesar de ter vivido mais de 75 anos, Rossini parou de compor óperas extremamente cedo. Em 1829, com apenas 37 anos (!), Rossini compôs a sua última ópera (o grande êxito “Guilherme Tell”). Nos restantes 39 anos – mais de metade da sua vida, saliente-se –, o compositor dedicou-se à direcção do Teatro Italiano de Paris, à direcção do Conservatório de Bolonha, à pedagogia musical e nunca mais compôs.

O abandono prematuro da composição musical de óperas não impediu Rossini de contribuir de modo significativo para o desenvolvimento do género ópera. Entre as suas mais importantes contribuições, que foram aproveitadas por quase todos os sucessores no género, contam-se o abandono por completo do recitativo sem acompanhamento orquestral, que possibilitou uma maior continuidade musical durante o espectáculo; e a escrita musical de todas as partes virtuosas e ornamentadas dos cantores, não deixando liberdade para acasos nas partes de canto.


Il barbieri di Siviglia – Aventuras de Figaro antes de Beaumarchais

A ideia para a composição de Il barbiere di Siviglia advém da grande admiração de Rossini por Beaumarchais, em especial pela sua peça Figaro, que o compositor italiano considerava conter todo o material ideal para uma ópera. No entanto, Rossini não parte directamente de Beaumarchais. O seu ponto de partida é o libreto escrito para uma das óperas de Giovanni Paisiello (1740-1816), também baseada na obra de Beaumarchais, onde Rossini viu um enorme potencial por explorar. Também intitulada de Il barbiere di Siviglia, a obra de Paisiello inventava algumas aventuras antecedentes que Figaro teria protagonizado, antes de Beaumarchais.

A intriga da história pode ser resumida do seguinte modo: «O Conde Almaviva, disfarça-se de um pobre estudante chamado Lindoro, de modo a seduzir a bela Rosina. Almaviva tem, no entanto, que ultrapassar o velho Dr. Bartolo que também pretende casar com Rosina. Figaro, o barbeiro do Conde, oferece-se para ajudá-lo. Seguem-se as várias cómicas peripécias do Conde Almaviva e do Dr. Bartolo na procura de desposar Rosina.»
Entre as várias curiosidades em redor de Il barbiere di Siviglia, conta-se que a partitura (três horas de música) terá sido composta em apenas duas semanas. Apesar do pouco tempo dispensado à composição desta ópera (Rossini teve mesmo que reaproveitar uma sua antiga abertura que já havia utilizado por duas vezes), Il barbiere di Siviglia é bastante rica em ideias musicais. O próprio Verdi caracterizou Il barbieri como uma «abundância de verdadeiras ideias musicais». Em apenas quarenta minutos de música estão condensados nove (!) dos mais populares momentos da história da ópera.

A ária de Figaro «Largo al factotum» é um desses momentos mais conhecidos. Nesta ária, o compositor utiliza o designado e super energético "Rossini crescendo", efeito que consiste na criação de pontos de tensão e repouso através da repetição de pequenas frases, que vão sendo progressivamente tocadas com maior intensidade e rapidez à medida que a ária se desenvolve. Este efeito é característico da música de Rossini e abunda em Il barbiere di Siviglia.
Em contraste com estes momentos "explosivos" alcançados pelo "Rossini crescendo", existem momentos que podemos designar de tranquilidade, que evitam alguma monotonia que poderia resultar de um excesso de energia. São momentos centrados nas figuras amorosas tais como a ária de Almaviva "Ecco ridente" e o seu dueto com Rosina "Contro un cor".

A direcção musical é da responsabilidade de Jonathan Webb e a encenação de Emilio Sagi. Os oito espectáculos serão interpretados por dois elencos de grandes vozes do panorama lírico nacional e internacional: Marius Brencius (8. 10. 12. 14. 16. Fev.) e Mário João Alves (9. 11. 15. Fev.) interpretam o jovem Conde de Almaviva; Bruno Praticò (8. 10. 12. 14. 16. Fev.) e Filippo Morace (9. 11. 15. Fev.) emprestam a voz ao Dr. Bartolo; Kate Aldrich (8. 10. 12. 14. 16. Fev.) e Natalia Gavrilan (9. 11. 15. Fev.) interpretam a bela Rosina; Franco Vassallo (8. 10. 12. 14. 16. Fev.) e Luís Rodrigues (9. 11. 15. Fev.) desempenham a personagem de Figaro, o barbeiro; Enrico Iori interpreta o papel de Basilio, o professor de música; Luís Rodrigues (8. 10. 12. 14. 16. Fev.) e Diogo Oliveira (9. 11. 15. Fev.) cantam Fiorello, o criado de Almaviva; e Elvira Ferreira dá corpo a Berta, a camareira de Bartolo.

Segunda-feira, Fevereiro 06, 2006

Quintetto a Plettro “Giuseppe Anedda”

Apesar do excelente nível de alguns executantes de bandolim, este instrumento nem sempre é visto como um instrumento de nível superior, sendo muitas vezes diminuído com a classificação de “instrumento popular”.

O grupo Quintetto a Plettro “Giuseppe Anedda”, onde participa o bandolinista madeirense Norberto Gonçalves da Cruz, contraria por completo esta imagem “popular” do bandolim. Por um lado, todos os cinco instrumentistas são extremamente virtuosos, ilustrando bem os dois principais bandolinistas o enorme potencial deste instrumento; por outro lado, o repertório escolhido, além do seu carácter virtuoso, insere-se nos géneros típicos dos grupos clássicos e eruditos, afastando-se bastante do repertório popular. Inclusivamente, o grupo toca repertório de autores maioritariamente contemporâneos, demonstrando assim que o bandolim também se adapta bem a compositores mais actuais e a técnicas mais modernas. Um bom exemplo disso mesmo, é logo a primeira música “Mediterranea”, de Luciano Bellini, recheada de escalas modais de sonoridade moderna, aliadas a harmonizações por vezes de teor arcaico, com um ritmo enérgico e agressivo.

Pela negativa, salienta-se apenas a qualidade da gravação, bastante caseira, merecendo o grupo melhores condições para um próximo disco. Tendo em consideração a elevada qualidade do Quintetto, o grupo merecia um convite para tocar no Festival de Música da Madeira.

Luiz Peter Clode (Parte II) “As origens do CEPAM”



No início da década de 40, Luiz Peter Clode organizou, em colaboração com o seu irmão William Clode e algumas figuras de destaque da sociedade madeirense, uma Sociedade de Concertos, no seio da qual surgiu a Academia de Música da Madeira, escola de artes que é a antepassada do actual conservatório. A Sociedade de Concertos da Madeira (SCM) foi fundada em 1943, com o propósito de fomentar a «arte musical» na Madeira, em proveito cultural de «uma sociedade de elite». Com esse objectivo, a SCM deveria organizar concertos, conferências, festas de artes, que integrassem artistas madeirenses e continentais de mérito reconhecido.

Apesar do objectivo assumidamente elitista, os Estatutos da Sociedade mantinham as portas abertas a concertos populares, defendendo mesmo a determinado ponto, que poderiam ser promovidos concertos para o público geral, com os artistas contratados pela SCM. Por exemplo, o actual “Auditorium” do Jardim Municipal (Funchal) foi inaugurado num espectáculo da Orquestra de Concertos da Emissora Nacional, organizado pela Sociedade de Concertos da Madeira, que contou com a assistência de milhares de pessoas (ver imagem do concerto de inauguração).
Os concertos populares ao ar livre foram inclusivamente realizados em vários locais do Funchal. Normalmente integrados nos Festivais de Música da Madeira, também da responsabilidade da SCM, estes concertos foram organizados em espaços tais como a Quinta Magnólia e o Largo do Município, tendo o seu auge decorrido principalmente ao longo da década de 50.

Nos espectáculos da SCM figuraram por vezes obras de Luiz Peter Clode, que foram tocadas por alguns dos destacados músicos que actuaram através da Sociedade. Entre as obras mais importantes do Engenheiro-Músico, contam-se três peças para piano – “Canção de Amor”, op. 23, “Fantasia N.º 1”, op. 12 e a “Fantasia N.º 2”, op. 31 – e uma obra sacra, um “Tantum Ergo” para duas vozes e órgão. Estas quatro obras tiveram inclusivamente a notoriedade de serem impressas.

Em Outubro de 1945, no seio da SCM, os irmãos Clode propõem a criação de uma Academia de Música, para aproveitar as vocações no domínio da música. Um ano depois, a proposta concretiza-se e a Academia de Música da Madeira é oficialmente inaugurada em 13 Novembro de 1946.

No plano curricular, a Academia seguiu desde o início os modelos do Conservatório Nacional. Esta harmonização com os programas do Conservatório de Lisboa valeu posteriormente aos alunos da Academia de Música, o reconhecimento legal das suas habilitações a nível nacional, situação que ainda hoje se mantém.

A Academia de Música da Madeira durou 28 anos, grosso modo, com esta designação (ainda se chegou a designar de Academia de Música, Belas-Artes e Línguas da Madeira). No entanto, como refere muito bem o historiador José Vieira Gomes, em «última análise, os dois novos estabelecimentos de ensino que se seguiram com os nomes de Conservatório de Música da Madeira e Instituto de Artes Plásticas não foram mais do que o antigo estabelecimento que existiu durante 28 anos». Deste modo, é possível defender que, no próximo dia 13 de Novembro de 2006, o CEPAM atinge os 60 anos de existência, uma data que merece ser comemorada com alguma pompa, bem merecida. Ao longo de quase seis décadas, a Academia de Música e, posteriormente, o CEPAM, formaram a centenas de profissionais que são a prova da boa formação ministrada por esta instituição madeirense. Muitos das personalidades que hoje em dia lideram e protagonizam a nossa vida musical obtiveram formação na Academia e no CEPAM. No plano musical e do ensino, destacam-se o tenor e compositor João Victor Costa, o pianista de Jazz Tony Amaral Júnior, a violetista Zita Gomes, o violoncelista Agostinho Henriques, o maestro Fernando Eldoro, o pianista João Atanásio, o flautista Agostinho Bettencourt e o pianista João de Deus; no plano musicológico, realçam-se o Prof. Rufino Silva e o Prof. Vitor Sardinha, que também se tem destacado como guitarrista; finalmente, no plano do ensino e da administração pública, salientam-se os nomes de Carlos Gonçalves (Director de Serviços do Gabinete Coordenador de Educação Artística) e José Pereira Júnior (Director de Serviços de Animação Turística na Direcção Regional de Turismo).

Luiz Peter Clode (Parte I) “As origens do CEPAM”

Actualmente, o “Conservatório – Escola Profissional das Artes da Madeira, Engenheiro Luiz Peter Clode” (CEPAM), é uma instituição imprescindível no ensino vocacional das artes na RAM. Em cada ano lectivo, centenas de alunos frequentam variados cursos nos domínios curriculares da música, teatro e dança, realizando esta instituição um importante plano de actividades, que leva as artes a diferentes espaços de actuação da Madeira.

Apesar da inegável importância alcançada hoje em dia pelo ensino das artes na RAM, nem sempre este domínio foi valorizado no âmbito educacional. Foi necessário o esforço de várias individualidades ao longo de várias décadas para chegarmos ao actual bom nível de ensino. Mas quem foram as primeiras pessoas a lutar por este projecto de ensino das artes na RAM? Quando e como começou o ensino vocacional da música e das artes em ambiente institucional entre nós?

Uma importante pista para estas questões encontra-se no actual nome da própria instituição: “Engenheiro Luiz Peter Clode”. Todos estamos familiarizados com este nome, mas quem foi Luiz Peter Clode e qual foi o seu contributo para o actual conservatório? Em suma, por que motivos se atribuiu o seu nome a esta importante instituição?

Luiz Peter Clode nasceu no Funchal a 1 de Abril de 1904. Após concluir com distinção o Liceu do Funchal, seguiu para Coimbra em 1921, onde frequentou a Licenciatura em Matemática. Posteriormente, mudou-se para a Universidade do Porto, onde se formou em Engenharia Mecânica e Electrotécnica em 1930.

Em paralelo com este estudos, Luiz Peter Clode cultivou sempre o gosto pela arte da música. Ainda no Funchal, estudou piano com as professoras Cora Alice Cunha e Olga da Cunha e Freitas, tendo continuado ligado à música nos tempos da Universidade, através da composição de várias obras musicais e da participação no Orfeão Académico e na Tuna Académica da Universidade de Coimbra.

Em 1931, regressou definitivamente à Madeira tendo sido consultor da firma Corys Madeira Company e mais tarde Engenheiro-director dos Serviços Industriais, Eléctricos e de Viação da antiga Junta Geral (entre outras funções), até se reformar em 1974.

Além da sua actividade na área da engenharia, Luiz Peter Clode nunca abandonou a sua paixão pela música. Segundo a sua filha Inês Clode Freitas, «ao longo de toda a sua vida [...], a Música foi, talvez, a menina dos seus olhos. E todos os dias tocava piano – improvisava e confidenciava ao seu Blütner – as alegrias e amarguras, decepções ou esperanças de toda uma vida dedicada à família, ao trabalho profissional e à cultura». Deste modo, não é de estranhar que no início da década de 40, Luiz Peter Clode tenha procurado organizar, em colaboração com o seu irmão William Clode, uma Sociedade de Concertos, no seio da qual surgiu a Academia de Música da Madeira, escola de artes que é a antepassada do actual conservatório

Quinta-feira, Dezembro 15, 2005

Jorge Salgueiro “Symphony no. 2 : Mare Nostrum”

Ouvir música como quem lê um livro. Esta é, de certo modo, a proposta do compositor Jorge Salgueiro, com a sua nova Sinfonia n.º 2 “Mare Nostrum”. O compositor partiu de uma ideia extra-musical para arquitectar a sua Sinfonia n.º 2, um recurso muito habitual no período musical romântico, época em que se tornou comum as sinfonias terem um programa escrito, para servir de inspiração ao ouvinte enquanto apreciava a audição musical. Um dos exemplos mais conhecidos de música programática é a Suite Sinfónica “Sherezade” do russo Rimski-Korsakoff, em que o compositor se baseou em textos das “mil e uma noites”, para construir os vários andamentos (“O mar e o barco de Sindbad”, “A História do Príncipe Kalender”, etc.).

No caso da obra de Jorge Salgueiro, o tema extra-musical é a epopeia dos navegadores portugueses de 1500, que inspirou o compositor a escrever pequenas histórias para cada um dos 4 andamentos, que constituem esta sinfonia:

1. “Vocatorius” – «Em sua casa, o Comandante dorme. No sonho ouve um chamamento de Sereias com promessas de um novo tempo. Acorda e avisa toda a guarnição de que irão partir. Iniciam a viagem. É a alegria de navegar, a faina, o cerimonial de navegação.»

2. “Sirenis” – «A guarnição dorme; acordado, só o pessoal de quarto. Soa o toque de alvorada. [...] Ouvem o inebriante canto de Sereias ao qual vão, inconscientemente, tentando resistir, como quem luta contra o sono e procura continuar desperto. [...] Sem governo, o navio acaba por se afundar, cedendo à tempestade que sobre ele abate.»

3. “De Profundis” – «Verificando o resultado perverso dos seus cantos, as Sereias recorrem aos seus poderes para voltarem a dar vida aos Marinheiros [...]. O navio inicia então a viagem fantástica de regresso à superfície e ressurreição da guarnição. [...] Vence e navega finalmente sobre um majestoso e imenso oceano.»

4. “Adventus” – «Sereias e Marinheiros finalmente cruzam sonhos. Com a ajuda das Sereias aviagem chega então ao fim, dando início a um novo tempo de contacto, conhecimento e entendimento entre os Povos.»

Além da temática dos descobrimentos, no plano das ideias extra-musicais, Jorge Salgueiro buscou também inspiração em pinturas de autores do século XIX (imagens que estão a ilustrar os andamentos), que são também uma referência para a audição.

No plano musical, o compositor serviu-se de materiais temáticos alusivos à Marinha, tais como a Marcha dos Marinheiros e os toques da Armada. No andamento “Vocatorius”, por exemplo, um dos temas principais é o Sinal da Armada, que serve de base, segundo o próprio compositor, a «toda a gramática musical do primeiro andamento» e que depois é «retomado no final da obra.»

Uma das maiores riquezas da obra é mesmo o excelente carácter descritivo dos temas melódicos, que emocionalmente estão muito bem conseguidos, sendo um bom exemplo disso o tema do sono no início do 1.º andamento, que simboliza o sono do comandante, reaparecendo mais tarde, no 2.º andamento, quando se evoca a imagem da guarnição a dormir.

João Victor Costa (I) “Hinos Políticos e a história do hino da RAM”

Os hinos políticos são cantos de celebração, que servem de símbolo solene de um povo. São vários os hinos políticos internacionais famosos, que instantaneamente remetem o nosso imaginário para um determinado povo. Exemplos disso são o hino inglês “God Save the King (ou Queen)”; o alemão “Deutschland über alles (ou Hino do Imperador)”, composto por J. Haydn; e a “Marselhesa”, o bem conhecido hino francês.

O actual hino português, “A Portuguesa”, foi composto em 1891 por Alfredo Keil (1850-1907), tendo sido uma das muitas reacções culturais ao ultimato inglês do ano anterior. Apesar de Keil ser monárquico convicto, o hino foi adoptado pelos republicanos e acabou mesmo por ser proibido durante cerca de 20 anos (entre 1891 e 1910). Ironia do destino, o hino composto pelo músico monárquico foi aprovado em 1911 pela Assembleia Constituinte da República, para ser o hino nacional português.

Ainda antes da composição de “A Portuguesa”, sabe-se da existência de dois outros hinos de Portugal: (1) o Hino da Carta ou Hino da Constituição, que foi escrito para celebrar o feito de D. Pedro IV, o outorgador da Carta Constitucional de 1826, e que até ao advento da República foi considerado o Hino Nacional (conhecido como Hino da Monarquia); (2) antes do Hino da Carta, o hino português era o final de uma cantata de Marcos Portugal (1762-1830),“La speranza, ossia l’anguro felice”, composto para celebrar o aniversário de D. João VI.

Na Madeira, o primeiro hino da região aprovado pela Assembleia Regional foi composto pelo músico madeirense João Victor Costa. Nascido em 1939, no Estreito de Câmara de Lobos, Victor Costa demonstrou desde cedo interesse pela música, tendo-se dedicado ao estudo deste domínio no Seminário Diocesano e, posteriormente, na Academia de Música e Belas Artes da Madeira, onde concluiu o curso superior de Canto.

Após a conclusão dos estudos superiores na Madeira, o músico seguiu para Munique, onde estudou durante 3 anos na Escola Superior de Música desta cidade alemã, com o auxílio de uma bolsa de estudos da Fundação Calouste Gulbenkian.

Seguiu-se então um longo período de actuações como cantor – durante as décadas de 60, 70 e 80 –, na Alemanha, Checoslováquia, Áustria, Israel, Itália, Holanda, entre outros, tendo o músico madeirense realizado vários contratos efectivos em teatros. Por exemplo, no Teatro Estatal da Ópera de Augsburgo, Victor Costa assumiu o lugar de tenor principal do repertório italiano e actuou em outros teatros como artista convidado, tendo inclusivamente cantado no famoso Teatro alla Scalla de Milão.

Durante este período em que o músico se dedicou principalmente ao canto, Victor Costa representou papéis em algumas das óperas mais importantes do circuito internacional, tais como “Il trovatore” de Verdi, “La Bohème”, “Manon Lescaut” e “Il Tabarro” de Puccini, “Os Palhaços”, de Mascagni, entre outras. Após este período de intensa actividade como cantor, em que residiu na Alemanha, Victor Costa voltou à Madeira, onde foi convidado para compor o hino da Madeira, um dos principais símbolos da Região Autónoma, juntamente com a bandeira, o escudo e o selo (continua).

L'Enfance du Christ de Berlioz


A Orquestra Sinfónica Portuguesa e o Coro do Teatro Nacional de São Carlos vão realizar um concerto de Natal no Mosteiro dos Jerónimos. O concerto vai decorrer no próximo dia 22 de Dezembro, às 21:30h, e é uma co-apresentação do Teatro Nacional de São Carlos com a RTP e o Mosteiro dos Jerónimos.

O programa do concerto é constituído por uma oratória de Hector Berlioz, L’enfance du Christ (A Infância de Cristo), que serve este ano de contraste às mais famosas e reinantes obras de Natal, das salas de concerto, o Messias, de Handel, e a Oratória de Natal, de Bach. O tema da história é o famoso episódio bíblico da perseguição e assassinato de todos os recém-nascidos aquando do nascimento de Jesus, a comando do rei Heródes, e a consequente fuga da “sagrada família” para o Egipto.

Os andamentos que constituem a trilogia sacra L’enfance du Christ não foram compostos originalmente como uma obra singular e indivisível, mas sim como peças separadas, entre os anos de 1850 e de 1854. A Parte II, La Fuite en Égypte, foi a primeira a ser escrita em 1850; na transição de 1853 para 1854, Berlioz acrescentou a Parte III, L’Arrivée à Saïs; finalmente, a Parte I, Le songe d’Hérode, foi a última a ser composta, em finais de 1854.

No dia 10 de Dezembro de 1854, a trilogia completa, como hoje é conhecida, foi estreada em Paris tendo alcançado um enorme sucesso, que foi explicado por Berlioz de uma perspectiva diferente da maioria dos críticos da época. Para estes últimos, o sucesso da obra devia-se a uma completa mudança de estilo e da maneira de escrever de Berlioz (principalmente em relação a La Damnation de Faust, que em 1846 havia sido um fracasso); segundo o compositor francês, esta perspectiva «não tinha nenhum fundamento», encontrando-se a explicação no próprio tema natalício da oratória, que Berlioz defendia «exigir uma música mais “naïf” e delicada» – de um terno sentimento pastoril, como caracterizou Lopes-Graça – e, consequentemente, mais «clara humana e melódica». Berlioz arrematou esta questão, defendendo que «teria escrito L’Enfance du Christ no mesmo estilo vinte anos antes».

Na prática, Berlioz nega principalmente uma evolução de estilo e não propriamente uma “mudança”, visto que o autor considerava esta obra, mais do que um avanço, um regresso ao passado. Por exemplo, ao compor esta oratória, o músico francês refere ter-se lembrado das suas jovens experiências musicais, principalmente como admirador de Lesuer (seu antigo professor). Lesuer introduziu Berlioz neste género sacro, tendo-lhe apresentado as suas numerosas oratórias sobre temas bíblicos, as quais despertaram no compositor um gosto pelo “colorido antigo” e pela simplicidade musical.

À simplicidade e ao gosto antigo da oratória de Lesuer, Berlioz juntou o cariz dramático e o refinamento da ópera. Apesar de L’Enfance du Christ ser apresentado como uma oratória, esta obra sacra tem várias parecenças com o género ópera, principalmente na primeira e na terceira partes. Por exemplo, todas as tentativas de “Heródes”, no sentido de se livrar de Cristo bebé, através do assassinato de recém-nascidos inocentes, são extremamente operáticas. Inclusivamente, Berlioz anotou na partitura várias indicações de “palco”, de modo a tornar mais explícitos os eventos que decorrem na oratória.

Os cantores solistas que vão protagonizar o concerto de Natal nos Jerónimos são a meio-soprano Enkelejda Shkosa, o tenor Stefano Secco, o barítono Daniel Borowski e o baixo Nicolas Testé. A direcção musical é da responsabilidade de Donato Renzetti.